domingo, junho 21, 2009

Gênese

Eis-me aqui, diante de ti,
rodilhado, calado, mudo,
a fitar-te com olhos ávidos,
sedentos, apaixonados.
Não direi palavra ou verbo.
Sou verbo e palavra,
ação violenta e precisa.
Não digo nada, apenas calo.
Eis-me aqui, aos teus pés!
Sou tua criação, fizeste-me!
Invocaste-me, e atendi!
Uma lágrima tua tocou a Terra,
e com barro e lágrima fui feito.
Eu era terra seca, pó, árido.
Era terra morta, era pedra.
Era rocha fria e lodosa.
Eis-me aqui, mudo, calado.
Sou teu pelo tempo que quiseres.
Existirei pelo tempo que quiseres.
Alimenta-me, e cresço, viço.
Dá-me de beber, e floresço.
Esquece-me, e morro. Seco.
Não há verbo ou palavra.
Sou verbo e palavra,
promessa viva de amor eterno,
calado, puro e intenso.
Eis-me aqui, a soma de teus desejos.
Sou tudo o que quiseres,
tudo o que imaginares.
Faze de mim tua arte,
cria em mim o ser humano,
encontra em mim o homem.
Minha mudez é promessa,
com-promessa, compromisso,
Eis-me aqui, teu, puro, único.
Toma-me como manto de tua alma,
faze de mim parte de ti,
conhece cada centímetro de meu corpo,
cada poro de minha alma,
e cuida de tua criação.
Não te arrependerás de teus passos,
não lamentarás as tuas perdas,
pois sou ganho para ti.
Eis-me aqui, sombra e imagem,
luz e penumbra,
mistério e desafio.
Criaste-me em teu coração,
e tua lágrima me fez vivo.
Fizeste novo meu coração,
e teu sangue corre em minhas veias.
Amaste-me com teu coração,
fizeste-me homem de novo.
Eis-me aqui, mudo e calado,
a fitar-te apaixonado:
Por todos os séculos,
sou teu.

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