domingo, maio 17, 2009

Coração de Navegante

Quis andar em terra firme,
trilhar rocha sólida com passos firmes,
cansado que estava de ondas, vento, mares.
Nunca houve chão sobre meus pés.
Somente o sabor das marés.
Nunca houve farol que me cativasse,
ou cais que me confortasse.
Não pode haver descanso para o navegante.
Quem pertence ao mar não pode morar em terra.
Sobre os mares singram corações incertos,
que são iludidos por ilhas que escondem vulcões.
São sempre traiçoeiras, sempre enganosas.
Têm sempre lindos oásis, em que correm águas limpas,
tentadoras frutas de inesquecível frescor,
tendas e lençóis de seda em brisas quentes.
Ah! se eu pudesse fazer delas morada!
Seriam meses e anos no paraíso,
de onde eu nunca pensaria sair!
Mas sou um coração incerto, um espírito instável!
Minhas âncoras rasgar-me-iam sem dó,
tragadas pela força do oceano,
pelos encantos dos outros mares.
Há momentos em que maldigo meu destino,
minha natureza traiçoeira de navegante!
Deveria antes maldizer a vontade de não querer,
o desejo irreal de encontrar um lugar para meus pés.
Meu destino é ser retalhado em mil tiras
pelos rochedos das ilhas por onde singro.
Prometeu apaixonado, eternamente devorado pela hárpia,
renascido dia a dia com a esperança de libertação.
A vontade irresistível de encontrar um lugar que me caiba,
a vontade interminável de navegar novos mares,
é a hárpia que me devora durante o dia,
e a esperança renova durante a noite os meus órgãos
para que se consumam no próximo amanhecer...

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