sexta-feira, março 21, 2008

Poesia III

Não vou mais escrever poesia.

Ela se tornou para mim um mundo inteiro,

uma tragédia constante, absoluta,

em que tudo é ventura ou terror,

ou é apenas mais uma paixão surda.

A poesia fez de mim um herói esquecido,

um cujo campo de guerra se esconde,

cujos opoentes se fantasiam de pedras,

e se fazem de anjos dourados,

embora sejam demônios das trevas.

Não vou mais escrever poesia.

Ela se tornou para mim um algoz impiedoso,

ilusivo, criador de paraísos e infernos,

que me engana com visões e sonhos,

que me faz acordar perdido e desarmado,

apenas para desesperar-me da liberdade.

Fugirei de ti, ó poesia, meu algoz!

Fecharei meus olhos à beleza

que ostentas diante de mim,

em formosas e inebriantes musas,

em fugazes e amados fantasmas,

sempre anacrônicos e luminosos.

Não vou mais escrever-te, ò poesia.

Teus poderes suprimem meu viver,

e me transformas em escravo teu.

Mas sei que assim é por minha própria natureza,

por ter eu nascido em tuas mãos quentes,

Peço-lhe que me dês pernas para poder andar ao teu lado,

que me faças fluido como tu és,

para que eu seja como a água

que sempre encontra seu caminho para o mar.

Sim, seja eu como água,

flua eu em direção a teus braços

e me torne oceano.

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