sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Paz, distante continente

Fogem-me os lugares possíveis.
Existo num vazio,
num branco puro,
onde nada mais existe.
Nada toco.
Nada ouço.
Sinto apenas meu coração,
seu bater surdo e forte,
mas doído e solitário.
Cada vez mais distante,
minha ilha singra sem rumo,
perdida em meio do nada.
Talvez o nada seja eu mesmo,
verme agitado e confuso.
Se eu mantivesse firme o leme,
mas sou apenas um homem.
Se eu fosse um semi-deus,
dono absoluto de mim,
teria pés firmes,
o vento não me abalaria.
e o dançar do mar não me faria cair.
Se eu fosse cego,
não me importaria em nada ver,
saberia que importa apenas a direção em que se navega.
e o vazio não me meteria medo,
nunca mais.
Dias e noites seriam apenas as fases do tempo,
e não arautos agourentos da tormenta.
Meus olhos não mais buscariam ansiosos o horizonte,
ávidos pela firmeza da Terra,
como se cada onda distante fosse um monte seguro,
ou cada recife um país.
Mas não sou cego: vejo, e bem.
Não sou meio-deus: sou humano, apenas humano,
e "demasiado humano",
pó, apenas pensante poeira,
torvelinho, e não furacão.
Sou soberano em minha solidão,
mas escravo de minhas fronteiras.
Faltam-me forças para remar...

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