domingo, janeiro 30, 2005

Sombra e Lume

O negrume das asas da morte me encobriram.

Sob sua sombra não há calor, conforto.

Resta um solo morto, incapaz de produzir vida.

Sobre este solo acordo e durmo.

Sobre este manto vivo e morro a cada dia.

Meu criar tornou-se destruir,

Meu riso converteu-se em choro.

A alegria abandonou meu coração.

Somente a contemplo de longe

em rostos tranqüilos e despreocupados.

Mas não mais me alcança sua alegria.

Sou agora um mero resto de homem,

Cheio de decepção e tristeza.

Qual é o limite da minha tristeza?

Quão fundo poderei ainda descer no poço?

Não vejo fim das lágrimas,

que serão perpetuamente guardadas em vasos de ouro.

Mais do que isso, serão guardadas junto a Jeová, meu Deus.

Vivo agora pela vida de outros

pois a minha própria se esvaiu de mim.

São meus filhos que me dão vida,

São eles que me sustentam.

Vivo por eles e para eles.

Perdi o compasso e não mais o alcanço.

(De fato, como poderia?)

Será que despertarei?

Subitamente tudo se dissolveu.

Desmoronaram-se todas as coisas

cuidadosamente colocadas nas prateleiras de meu quarto.

São tantos, tão violentos, tão maus,

os demônios que me assombram!

Suas iníquas vozes não sussurram mais.

Gritam, furiosas, tentando me aterrorizar.

Mas qual horror ainda me sobrevirá?

Que dor ainda me reserva o passar dos tempos?

Aguardo tão somente a ação divina,

que há de findar o mal.

Por enquanto,

permanece a futilidade de todas as lágrimas,

de todo sangue derramado,

de todo suor e angústia.

O homem se perdeu no caminho,

perdeu o caminho.

Sou homem, e me perdi,

assim como o louco que anda de olhos fechados.

De sete em sete dias tropeço e caio.

Meu levantar se torna cada vez mais lento,

cada vez mais raro.

Não mais ando: cambaleio.

Meu riso tornou-se euforia,

ardiloso sentimento que me confunde.

Por mais que eu anseie pela primavera,

persiste o inverno.

Estou cansado do horror, do sangue, da dor.


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