domingo, janeiro 30, 2005

Raízes

Minhas raízes doem.

Estão pequenas, fracas.

Percebem o solo seco demais,

calcado demais, cru demais.

Ensaiam, contudo, romper a rigidez da terra.

Romper rochas e pedras,

com a força lenta e pequena que possuem.

São raízes tímidas e pequenas,

cheias de medo e de dor.

Vejo, porém, o brilho de seu poder.

Vem de dentro da terra, em pequenos fachos,

que nascem raivosos, magoados.

Queria a terra fértil, fofa.

Não é.

Ensaiam minhas raízes sua ira.

Sua revolta, filha de sua angústia.

Fui ludibriado.

O solo não é o que eu pensei.

Vi grandes árvores,

imponentes e fortes.

Cresci, mas não minhas raízes.

Agora vento e chuva quebraram meu tronco.

Apenas as pequenas raízes estão ainda no solo.

Desisti do resto.

Tornou-se lixo,

madeira para ser queimada.

Folhas, tronco.

Minhas pequenas raízes doem.

Antes de crescer de novo

(se eu conseguir crescer de novo)

vou fincar fundo minhas raízes.

De que vale meu tamanho se não posso sustentá-lo?

De que vale toda a exuberância se ela é tão fugaz?

A majestade das árvores é, às vezes, ilusão.

Minhas pequenas raízes sangram.

Sua seiva escorre como lágrima.

Mas secará, e estancará as feridas.

Sou um sinal entre os homens:

o mal não conhece limites.

Sou o fim do homem,

sou o fim do mundo.

a aniquilação.

Determinei-me a vencer o mal que me atingiu.

Até a mais fraca árvore,

se deixada de raízes ao solo,

recupera sua força e vive.

Viverei, por teimosia.

Viverei, por lealdade.

Viverei, por amor.

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