domingo, janeiro 30, 2005

Prometeu I

Vejo o inteiro universo.

Da mais alta montanha o horizonte se desvela.

Mas vejo o horror em todo o redor,

encobrindo com asas reluzentes a beleza dos campos e dos mares.

A tristeza de meu coração parece não ter limites nem fim.

O não-existir, o não-ser, são a ilha desejável que contemplo à distância.

Intocável e aprazível berço de repouso,

anseio de minhas manhãs e noites.

Como Prometeu, estou condenado à perpétua decadência.

Meus órgãos todos, e não só meu fígado,

é consumido e recomposto a cada manhã e cada noite.

Como Prometeu, recai sobre mim a violenta maldição de Zeus.

Roubei o fogo, criei a luz, incorri em sua ira.

Todas forças do universo me são hostis.

Como Prometeu, estou condenado à perpétua esperança.

Não sei o que é pior: a eterna esperança ou a completa desilusão.

Mas não consigo destruir nem uma nem outra.

Permaneço, portanto.

Por enquanto, todas as aves consomem minha carne.

Destroçam-me durante o dia, deixando apenas meus ossos.

Durante a noite, músculos, tendões e veias se refazem,

preparando-me para nova jornada de horror

que se iniciará com o nascer do sol.

Não espero salvador, pois não me é adequado.

Ninguém pode findar meu tormento,

nem me libertar dos horrores do dia.

Nesta hora, minha fé falha.

Não me sinto digno dela,

tão bela e tão pura.

Existo apenas como uma negação existencial,

um absurdo impossível.

Até quando?

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