domingo, janeiro 30, 2005

Per Sæcula Sæculorum

Eis que me desconheço de novo.

Perco minha identidade a cada passo que dou.

Quantos passos dou, tantas faces tenho.

O fluxo de minhas múltiplas faces é contínuo.

O que permanece é uma essência improvável.

O que penso que sou, não é,

E ainda que fosse, deixaria de ser.

Mas não me permitirei mais existir.

Não serei o que me ensinam.

Não mais me perderei nos discursos alheios e nas imagens que vejo.

Serei um ente perdido que desistiu de se encontrar.

Firmarei minha voz como as águas de um rio sem afluentes.

Talvez eu me esvaia antes de chegar ao mar.

Talvez não, pois haverá a chuva que me alimenta.

A Palavra que desce dos céus é que me susterá em meu caminho.

Mas talvez os céus estejam fechados para mim.

Talvez eu seja destinado a não ser.

Talvez eu seja um mero anseio não realizável, impossível.

É isso o que me conta meu coração.

Um cais.

Um porto.

Descanso.

Tudo isso eu desconheço.

São meras ilusões em meio ao fugaz turbilhão da existência.

Sou um homem em crise,

constantemente em crise.

Tenho desistido de encontrar alívio.

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