domingo, janeiro 30, 2005

Pedro, Marido de Maria

Ele era um homem simples, calado. Sua aparência comum podia passar desapercebida em qualquer lugar em que estivesse. Se o visse na rua, num tremou em qualquer outro lugar dificilmente o notaria. Contudo, sua insignificância escondia uma triste história, que agora passo a relatar-lhes com uma profunda angústia no coração.

O homem se chamava Pedro. Nascera no interior do estado, numa cidade que sobrevivia da agricultura e do gado, como muitas em nosso país. Filho de pais analfabetos, teve uma infância conturbada, tendo de trabalhar desde muito cedo. A família era agregada a um produtor da cidade, junto com outras dezenas que também estavam na mesma relação de dependência. Aqueles não eram dias fáceis. Tentou estudar, mas as dificuldades eram muitas: se ele não estivesse com o pai na colheita, a família ajuntaria menos grãos, e conseqüentemente, teria menos dinheiro. Faltava às aulas por dias seguidos, de modo que, por fim,após a terceira reprovação, deixou os estudos.

O trabalho era pesado, enxada, cargas e fardos. Só as suas pernas continuavam finas, herança da pobreza congênita da família que não podia alimentar adequadamente a seus sete filhos, dos quais ele era o terceiro. A pele de suas mãos se transformou num couro amarelado pela terra. Sentia saudades da escola, do clima monástico do antigo grupo escolar governado com mão de ferro pelas freiras da cidade. Numa tarde contou-me que uma delas que o ameaçou de danação nos infernos por não se educar. Só não implicavam mais com ele porque estava sempre presente às missas dominicais e confessar-se regularmente.Casara-se poucos meses antes de se mudar. Sua esposa já estava grávida quando vieram. “Melhor seria ter ficado e não ter trazido tanto sofrimento à minha mulher e meus filhos.” –dizia ele com simplicidade e tristeza. Tudo isso tomei conhecimento a partir de minhas conversas com ele no horário de almoço da construtora onde trabalhávamos.

Depois de se cansar da vida em sua terra com sua família, veio para a capital à procura de melhores condições de vida. Trabalhava em qualquer serviço que encontrasse. Sua esposa, mulher bondosa, porém muito fraca de saúde, perdeu o filho que traria ao mundo. Dentro de dois meses, perderia também a própria mulher que não suportou o rigor do aborto. “Não respeitou o resguardo!” Culpava a esposa por lhe ter levado o que Deus lhe preparara de melhor. O casal teria uma menina.Sua tristeza realmente me comovia.

Estávamos isolados da civilização, cercados por uma vegetação hostil, cerrada. Construíamos uma ponte que seria um grande marco na história de nosso país. Confesso que eu me sentia extremamente orgulhoso com essa idéia, a de poder trabalhar em tal projeto. Curiosamente, não era assim com Pedro. Era indiferente, alheio à importância da integração do território danação. Éramos colegas já por quase dois anos, desde o início da obra. Confesso que ingressei no projeto por reconhecer seu valor. Tal disposição era compartilhada com outros colegas, mas parecia que Pedro havia se empregado por um mórbido desejo de fugir de sua vida anterior. Estranhava-me muito o fato de ele nunca receber cartas, nem mesmo de escreve-las. Até me ofereci para sobrescrita-las para ele, na suposição de que não sabia como. Realmente, era não guardou o hábito da escrita, restringindo-se a assinar apenas seu próprio nome.

O trabalho corria por seis dias da semana. Aos domingos havia folga, com uma condução pela manhã ao povoado próximo da obra. Ficava a uns cinqüenta quilômetros de distância do acampamento. A noite de sábado era sempre uma grande festa entre os trabalhadores, que tocavam,bebiam e dançavam fartamente para no dia seguinte irem se benzer junto ao padre do vilarejo. Novamente, a exceção era Pedro, que se limitava a beber sentado a um canto do grande pátio do acampamento. Se houvesse alguém disposto a conversar, ele conversava. Se não, nenhuma diferença fazia. Eu costumava sentar-me ao seu lado e passávamos horas juntos, às vezes até o amanhecer. Bebia muito. Mas não fazia gritaria ou algazarra. Guardava sua embriaguez para si sem chamar atenção ou dar mostras de atordoamento. Confesso que eu não chegava a beber nem um quinto da quantidade de aguardente que ele bebia. Acho que foi naquelas noites sozinhas que ele planejou tudo. Afinal, das poucas vezes nas quais ele falava de si, quase todas ele maldizia sua existência.Não que fosse alguém agourento, mas mostrava carregar uma dor muito maior do quê seria capaz de suportar. Fazia-me muitas perguntas para as quais eu não lhe respondia nada, apenas o meu próprio silêncio e ignorância.

- Por que o mundo é como é? – disse ele na sua penúltima noite.

- Como assim? – retornei-lhe. Estávamos observando uma enorme lua que despertava por detrás de uma montanha logo diante de nós.

- Desse jeito, ora essa! Estamos aqui, mas do outro lado do mundo alguém está morrendo e a gente nem liga! Cada vida é importante, não é? Mas não vale muito. Perde-se muito rápido.

- Acho que não é bem assim, não, Pedro. Cada um tenta fazer o melhor que pode. E a vida é boa.

- Eu sei. Mas é como eu vi num filme quando eu morava na cidade, o início da vida da gente é cheio de coisas que são tão boas,mas que são tão rapidamente esquecidas por causa das desgraças que chegam depois que a gente vai vivendo... Por que será que Deus fez as coisas assim?

- Conversa com o padre. Ele estudou essas coisas, pode responder para você.

- Não acredito em padre. Eles me disseram que foi Deus quem levou minha filha e minha Maria. Mentira! Deus não precisava delas, mas eu é quem precisava.

- Pensei que você fosse religioso, Pedro. Desculpe-me. Acontece que eu mesmo não sei o que dizer para você. Sei só que estamos vivos, e que devemos viver do melhor jeito que der. Mas os ‘por quês’,isso é difícil. Tem gente que estuda muito, mas não consegue entender...

- É por isso que eu acho que Deus nem liga para a gente.

- Eu não penso assim. A vida tem tanta coisa boa! Se Deus não se importasse, por que haveria tanta alegria?

- Mas por que existe então tanta tristeza? Digo uma coisa: eu estou cansado de viver e de ver gente sofrer. Meus pais e irmãos amargavam o pão que o diabo amassou lá em N... Vim para Belo Horizonte só para ver a coisa melhor de minha vida morrer. Não tive coragem de voltar de tanta vergonha que fiquei. Agora vivo cada dia apenas esperando morrer.

- Acho que você exagera. Todos gostam de você, Pedro. Graças a Deus, pense bem! Imagine que podia ser pior.

- Não estou chorando minha sorte. Só a usei como exemplo. Sei que tem gente que sofre muito mais do que eu, que pena muito mais. Tem lugar que não tem comida, que está em guerra. Aqui não tem disso, mas eu questiono é que a gente vive! Que coisa mais esquisita, estar vivo. Será que estar morto é a mesma coisa?

-Pedro, você me desculpe, mas vou levar a garrafa embora. Você já foi longe demais. Daqui a pouco você está chamando os mortos da sepultura!

Realmente, peguei a garrafa de cachaça e saí. Já havia bebido muito e aquelas perguntas já estavam me cansando. Para que tanto perguntar se não se vai a lugar algum? Pedro olhava para o vazio enquanto falava.Era como se sua própria vida estivesse atrelada àquelas questões. Só que eu não percebi o quanto.

No dia seguinte acordei tarde, com minha cabeça doendo por causa dos efeitos da bebida. Saí de meu alojamento, que era construído numa elevação do terreno e não avistei ninguém. Haviam todos saído cedo para o N... Quando olhei para o ponto onde Pedro e eu estivéramos, pasmei: eis o próprio Pedro, sentado exatamente no lugar onde o deixei. Corri para lá.

- Estás louco, homem? Passou a noite aí?

- Sim. Entendi uma coisa.

- Entendeu o que? Que a Terra roda?

- Não. Que a gente vive só para morrer.

- Falei! Falei! Ficou maluco! Para que ficar fazendo pergunta que não tem resposta?

- Mas é. Veja só: depois de morrer a gente não vai para o céu? O céu é muito melhor do que aqui. Gente boa não precisa viver. É só morrer. Foi por isso que minha Maria e minha filha morreram. Deus não queria que elas sofressem.

Pedro estava fora de si. Suava muito, e falava de modo ofegante. Fiquei impressionado com a aparente clareza de seu raciocínio. Obviamente,não concordava com uma vírgula daqueles disparates.

- Como é que você sabe que vai para o céu? Como é que você pode saber o que Deus quer? – perguntei-lhe após abraçar-lhe e traze-lo para a sobra de um arbusto próximo a nós.

- Sei porque sei que é assim. A gente não foi feito para sofrer,ninguém foi feito para sofrer.

- Pedro, sei disso. Também acho isso. Mas agora você precisa é de descanso. Vamos, vou com você até seu alojamento. Você vai dormir agora.

Pedro continuou a falar de modo desordenado. Chorou muito, novamente clamando a morte de sua esposa. Ele fizera dela seu apoio na vida. Mostrou-me uma foto.Era uma moça muito bela, de cabelos muito negros e olhos escuros e inteligentes. Tinha um sorriso afetuoso na foto, onde ambos se abraçavam.

Fiquei com ele até por volta das onze horas, quando ele adormeceu. Fiz o meu almoço, pois o cozinheiro também havia ido ao vilarejo. Dormi logo depois de comer.

Fui despertado por um dos capatazes. O homem estava desnorteado.

- Doutor, doutor, uma desgraça, uma desgraça! Vem comigo, por favor! Uma desgraça aconteceu! O Pedro, doutor, o Pedro... Lá no alojamento.

Ao chegar, horrorizei-me ao ver o corpo inerte de Pedro pendurado na viga do telhado. Sob seus pés, uma banqueta virada e um pequeno pedaço de papel. Estava escrito numa letra infantil:

“Pedro, marido de Maria.

Nascido 13/05/1968,

casado 21 de julho de 1991,

morto 21 de julho de 2001.”

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