domingo, janeiro 30, 2005

O Verbo

Estou muito incerto acerca de tudo.

Talvez porque tudo em minha vida esteja tão incerto.

São reciprocidades inevitáveis.

Nem mesmo minha maior segurança existe mais, pois a perdi.

Sou indigno do nome que levo comigo.

Sei que meus empenhos são insignificantes diante do futuro,

inelutável maldição contra horrores.

Destes, eu sou o maior.

Ou pelo menos sinto-me.

Estou perdido.

Parece que vou enlouquecer.

Vejo-me só, absolutamente só,

numa infindável e icomensurável solidão,

a escrever sobre a luz da tela do computador.

Ninguém existe em meu mundo;

só eu.

Não adianta falar, gritar, nada.

As visões que tenho do mundo exterior são pesadelos.

Todos (ou quase todos) os seus seres são monstruosos,

são amedrontadores.

Bocas escancaradas,

dentes enormes que se projetam sobre minha carne.

Cabeças gigantescas,

que fazem com que o corpo oscile como um boneco teimoso.

Indiferença.

Meu filho morreu.

Minha história foi mutilada.

Morreu parte de meu significado.

Sou meio-sentido, meia-razão,

mas completa dor.

O homem nasce,

cresce iludido,

morre triste.

Quanto mais vivo,

mais choro.

Quanto mais existo,

mais sangro.

Vida é sangue e lágrimas,

dor e lamento.

Idade é solidão.

Parece que toquei o fundo com meus pés...

Haverá algo mais abaixo deste poço?

Há o Verbo, a Palavra.

É por isso que escrevo.

Porque não há outra coisa além para mim.

Sou só o verbo.

Mas qual?

Fiat lux.

Fiat homo.

Fiat voluntas tua.

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