domingo, janeiro 30, 2005

O Ninho

Quero um colo para me deitar.

Quero lábios que me acalantem,

braços que me segurem firme,

mãos que me impeçam de derreter.

Quero ouvir a doce da voz da mãe,

segurar a mão firme do pai.

Sou como o pássaro filhote

que caiu do ninho.

Sem ninho, sem colo, sem lugar.

Tenho saudades do calor das penas,

saudades dos irmãos que não tive,

saudades do ninho.

Não soube o que é o vôo,

mas a queda.

Depois de muito cair, tentei bater asas.

Sem saber como, voei.

No ar, fui caçado por aves rapineiras.

Ao solo, peçonha e vileza.

Cansado, fugi à mais alta montanha.

Dali vislumbrei tudo e todos.

Chorei pela dor que vi e vivi.

Maior do que eu foi minha dor.

Ela foi minha irmã desde muito novo.

Fiz dela o fogo que refina o ouro,

a força que cria as esmeraldas,

o esmeril que lapida diamantes.

Tornei-a escudo e violência.

Tornei-a humildade e paciência.

Mas ela não se contentou:

consumiu-me sem piedade.

Por fim voltei à terra.

Mas não era mais eu:

era somente a dor,

somente desilusão.

Quis voltar ao ninho,

mas ele não existia mais.

Restavam somente restos,

cascas e lascas quebradas,

lamentos do passado.

Novamente voei rumo ao infinito,

amaldiçoada ave de rapina,

perdida e confusa.

Não haverá pouso para mim?

Nenhum comentário: