quinta-feira, janeiro 27, 2005

O Calabouço

No calabouço a angústia é o pão de cada dia.

O frio emana das paredes úmidas e enche o coração de dor.

É algo que não se fala, mas se sente.

O raiar do dia pesa como um fardo mais pesado que meu braço pode suportar.

O existir dói como a certeza da morte que chega a roubar-nos.

Mais lágrimas, mais perdas, mais derrotas.

Não importa perder ou ganhar, mas permanecer.

O dia traz a expectativa da mudança, mas a noite alimenta a espera.

E a alma se transforma inexoravelmente, e quem não enxerga isto não sai da senzala.

Há medo do novo, do solo virgem, do escuro onde o movimento é tateado e não visto.

Falta o chão nos pés, e não mais se anda: voa.

Não há outra escolha.

Não há pouso de morada, e a mudança chega a cada nova manhã.

O que ela trará? O que me reserva o dia seguinte?

Tenho medo de não ser, ou de deixar-me levar pela artificialidade de homens de plástico.

Sua embriaguez é desprezível, mas ela vem do fétido ar que respiram.

Ar estagnado, velho e saturado com seu hálito imutável de manhãs incontáveis estacionadas em fila no mesmo lugar.

Sua covardia os fez parar, seu orgulho e arrogância os fizeram grandes,mas a sua morada os esmaga.

O coração é o cadinho da alma e a porta para a liberdade.

Ou se atravessa a porta e mergulha no escuro ou se é devorado pelos restos de gente que não foi além dos seus limites.

É preciso avançar para não ser como o vil inseto que se alimenta mediocremente de cadáveres e de coisas podres e velhas.

Rapidamente começa-se a devorar o próprio corpo e não mais se sente dor.

A mutabilidade pede ação.

Ação pede sabedoria perene, paixão e devoção.

O que é perene não envelhece, mas como achar algo durável?

Colhe pedras preciosas pela estrada onde andares,

e mesmo no escuro elas brilharão.

Terás de lapidá-las para que vejas sua plena beleza e seu brilho.

Pedras preciosas refletirão os segredos do teu coração se te mirares nelas.

Tem coragem! Vai!

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