domingo, janeiro 30, 2005

Nascente

Tardia, a poesia flui de mim como sangue.

Escorre, lenta e pensativa, por minhas faces maduras, sulcadas pela dor,

Por lágrimas não exploradas,

Por clamores não proferidos.

O destilar das palavras tem vida própria.

Não se situa em tempo ou espaço, mas em circunstância,

E, como soberano, escolhe sua própria hora de nascer ou morrer.

Enquanto isso, sou seu solo, sou seu céu.

Poetizar, ou profetizar, ou seja lá o que for, é o filho que me rasga as entranhas ao crescer e nascer.

A dor se mistura às palavras, mas seus significados estanques não a podem conter: ela sempre permanece.

Embora algoz, também redentora é a poesia.

Liberta-me por um tempo de meus demônios, lembranças do escuro, lembranças de pesadelos voltaneiros.

São essas lembranças que me criam e destroem, é aquela dor que me constitui e me desfaz.

Lágrimas contidas sempre fermentarão...

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