domingo, janeiro 30, 2005

À Máquina


A máquina faz seus giros,

rugindo frente a ouvidos surdos,

que apertam suas porcas

sem olhar o que fazem.

Máquinas também,

suporte de ocas caixas,

presas entre as orelhas,

movem-se sem pensar

nas correntezas de esgoto,

a garimpar seu ouro de tolo.

Quais são os sobreviventes?

Quais são os que ainda sentem?

A grande máquina, gira, ruge,

amedronta e ameaça os que não a adoram.

Controla o alimento e as fezes,

controla o pensar e o amar.

Ai daqueles marginais,

que se recusam a compor suas engrenagens,

que não apertam seus parafusos,

que não lubrificam seus rodízios!

Ai dos que lutam contra sua tirania!

Cairão todos,

explodir-se-ão sob suas construções,

shopping centers e malls,

mas serão engolidos, pasteurizados,

transformados em cimento para os pés de ferro,

em fundamentos de sua perpetuação.

A Máquina, a grande Máquina,

perpetuamente machina,derrogante, obliviante, absoluta!

Hás de permanecer,

criando e esmagando seus desconstrutores,

criando e esmagando seu próprio sangue!

Apenas aos teus olhos és perpétua,

apenas aos olhos de teus escravos.

Tua força é uma ilusão,

uma frágil ilusão.

Cairás, chegarás a teu fim,

tão certo quanto nascerá amanhã um novo dia.

Serão espalhadas tuas porcas e catracas,

tuas correntes e monitores,

nas tuas paredes serão espalmados

todos os teus servos,

todos os teus cegos escravos,

todos os monstros que te comandam.

Hás de perecer, iníqua corporação,

Hás de descer ao fogo das profundezas,

que te queimará com formol e enxofre!

Teu dia chegará,

e serás posta como sinal para todos os séculos:

"A iniqüidade tornada direito e dever,

a impiedade tornada caridade,

a crueldade tornada propriedade,

a exclusão tornada norma!"

Destruídos serão teu céu e tua terra,

teus escravos e tuas ferramentas,

e novos céus e nova terra haverá,

em que morará a Justiça.

Serás apenas uma remota lembrança,

uma lição de história,

um testemunho para os séculos todos,

em que, livres de ti, viverão homens, mulheres e crianças,

sempre felizes,
perpetuamente justos,

perpetuamente livres.

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