quinta-feira, janeiro 27, 2005

Metamorphos

Amo, é verdade, a outra metade que me constitui.

Amor com a profundidade da unidade, o Grande Mistério.

Dois unidos em três num jugo inquebrável, corrente feita de três elos.

Sua força vem do maior deles, e nos vínculos entre eles que viajam pelo tempo.

Submeto-me, é verdade, a este rio.

Águas rápidas, mais velozes do que eu.

Ai de mim! Tonto e perdido nestas corredeiras.

Como eu gostaria de chegar num lago calmo, uma piscina de águas plácidas,onde eu ouvirei apenas o som das águas,

E não os meus próprios gritos de medo, de horror.

Desejo renascer, de fato.

Renascer como uma pedra, e não como nuvem,

Esta tempestuosa e fugaz bruma.

Há um demônio a me espancar, é verdade.

Companheiro iníquo, ladino e vil.

Sutil e cruel,

Sussurra seus pensamentos desencaminhantes ao meu ouvido,

Confundindo-me, trapaceando-me, adoecendo-me.

Ah! Se eu puder tão somente sobrepujá-lo!

Então eu poderia tomar plena posse de mim mesmo,

E parar de lutar e carregar este fardo!

O Caminho é estreito, e o portão não é largo, mas pequenino.

Eu queria ser uma criança, realmente.

Ter um sorriso inocente, cheio de confiança e fé.

Eu correria por vales selvagens e florestas, onde nenhum homem ousou atingir.

Não encontraria lobos ou leões ferozes, mas pessoas mansas.

Um povo que entendesse as diferenças e igualdades entre o certo e o errado,

O que é direito e o que é branco, o que é errado e o que é esquerdo.

Eu queria ser um bom poeta, um poeta de verdade,

Um que soubesse expressar dualidades com unidades,

Um que criasse do mesmo pó o bom e o mau, o feio e o belo, luz e treva.

Um que tocasse corações e mentes, e qualquer coisa onde a vida pudesse florescer.

Eu queria ser o pesadelo dos iníquos.

Ser sua morte cruel, impiedoso executor, sua última visão, seu último calafrio.

Até lá, eu espero, enquanto me transformo, sem cessar,

Em amor, água, um neonato, um demônio, uma criança, um poeta, um fogo.

Quando irá isto parar?


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