domingo, janeiro 30, 2005

A Hidra

Não consigo enxergar no escuro, ou mesmo no claro.

Tudo se apresenta enevoado, indefinido.

Mesmo meus próprios membros, minhas próprias mãos e pés,estranhos me parecem.

Mas não são tão estranhos assim...

Remetem-me a dias passados, a tempos não tão remotos que suas raízes deixem de me alcançar.

Descubro que certos passos meus não são de um homem, mas de um deus.

(Pobre deus!)

Um homem que não vê, mas um deus pensa que vê,

Que escolhe suas visões e contempla suas próprias criações

Que formou um universo em torno de seu mirrado corpo, e que se assenta como soberano em seu trono de palha.

(Pobre deus!)

O homem conhece sua pequenez, mas o deus não olha para sua própria estatura.

(Pobre deus!)

Um dia, o homem decidiu matar o deus.

Cortou seu corpo em pequenos pedaços, mas estes se reajuntavam e se recompunham, a não ser que fossem queimados pela mulher à medida que eram decepados pelo homem.

(Pobre deus!)

A Hidra, após alguns anos de constante guerra, foi reduzida a cinzas.

Agora o homem e a mulher puderam andar e dançar sem o escárnio do deus que os oprimia,

Puderam amar sem o medo de ser devorados pela fera na qual o deus se transformava quando queria.

Destruído, o deus criou a liberdade e a felicidade.

(Feliz, o homem e sua mulher.)

Nenhum comentário: