domingo, janeiro 30, 2005

Eu e o Rio

Sob a sombra de uma catedral de nuvens,

Vi meus passos sobre a Terra.

Chorei pelos caminhos que não trilhei,

Agradeci aos céus pelos que pude desbravar.

Que fui e que sou nesta vida?

Uma mera bruma, um chuvisco, se houver ânimo.

Não alcanço a profundidade da existência.

Escapa-me pelos dedos, tão logo a sinto entre as mãos.

Passo a crer na ilusão de todos os pesadelos e sonhos.

Não há diferenças entre uns e outros.

O mesmo sonho se transforma em pesadelo, sem que se possa acordar.

Muitas vezes já foi dito: “Somos barcos sem rumo num rio caudaloso.”

Perdi-me na beira do rio quando desci para chorar meu pranto.

Diferente do homem que se perdeu com seu pai no rio, perdi-me na margem.

Aguardava eu meu pai, sem saber que o rio não o traria.

Depois de uma inundação, acordei sobressaltado.

Águas entravam em meus pulmões e roubavam-me o ar.

Senti a morte chegar.

Senti também um barco chegar.

Duas crianças chamavam por meu nome: “Paz, Paz!”

Reagi. Levantei-me. Mas não senti minhas pernas.

Andei rumo ao seu pequeno barco, mas não vi minhas pernas se moverem.

Agarrei-me à borda, enquanto suas pequenas mãos tentavam me puxar em vão.

Olhei para as catedrais de nuvens, e vi meus dias.

Olhei para o rio, e vi o fim de meus dias.

“O que é mais terrível” – pensei–“viver ou morrer?”

Das gotas de chuva veio a resposta.

Calo-me.

Não me foi concedido falar sobre isso.

Nenhum comentário: