domingo, janeiro 30, 2005

Eu e Deus...

Apresento-me diante de teu trono.

Venho nu, despido de armas ou escudo.

Venho só, solitário que sou em meu ser.

Venho mudo, sem palavras ou voz.

Sou teu filho, feito à tua imagem e semelhança.

Como tu és, eu sou.

(O exílio apenas me tornou mais amargo que tu.)

Ainda me assemelho a ti.

Sou capaz de amar.

Julgo segundo a justiça.

Leio tua sabedoria na Terra e nos céus.

Sinto teu poder em minhas mãos.

Como eu sou, contudo, tu não és:

teu amor ultrapassa e perpassa todo o Universo;

tua justiça está acima da mesquinhez dos homens;

tua sabedoria humilha pretensos e enfunados sábios;

teu poder é exercido incondicionadamente, segundo tua doce e violenta vontade.

Homem algum se aproxima de tua majestade.

Observo teus movimentos, ouço tua voz.

Tremo sob tua força, encolho-me sob teus passos.

És irresistível e inexorável.

Teu olhar é terrível, não posso suportá-lo.

Pela voz de teus profetas conheço teus juízos e minhas heresias.

Desvelam-se meus pecados e minhas tantas inadequações.

Reconheço-me como uma inequação, uma "aberratio Dei".

Talvez sejam meus ouvidos pesados demais, gordos demais.

Teus profetas proclamam tua promessa de liberdade.

Tenho fé nela.

Não há outra resposta possível.

Mas minha perfeição me exclui de teu Sábado.

Não sou apenas indesejável, mas inadmissível.

Fiz de mim um herege:

não te perdoei por me teres amado;

não te perdoei por me teres criado.

Sou um homem de crise, em perpétua crise.

Não existe para mim vida, mas apenas crise.

Sou um homem (Ou uma criança?) de dissolução.

Vivo a mudança como respiro ou bebo,

mas iludido por um desejo de quietude.

Sou um homem sem imagem nem reflexo.

Acreditei numa promessa de paz, como se esta fosse possível!

Acreditei numa felicidade impossível, baseada numa ilusão de ser.

Eis que me vejo condenado a nunca ser,

nem mesmo me ver em espelhos,

e ao mesmo tempo ser tudo em tudo,

encontrando-me em cada pingo de chuva,

em cada tempestade,

em cada nascente,

em cada oceano,

em cada folha de grama,

em cada erva daninha ou venenosa.

És tu o grande Criador,

mas sou eu tua grande criação.

Tu és o relâmpago,

e sou eu teu trovão.

Tu és o oceano e todas as águas,

e sou eu tua tempestade e tuas enchentes.

Eis que sob meu andar treme o solo,

assim como o universo treme sob tua voz.

Mas tu me mantiveste longe de tuas asas protetoras.

Fui atingido por paus e pedras sem escudo.

Fui ferido além de cura, mas o que fizeste?

Onde estavas quando me mutilavam?

(Deixa-me saber, se me ouves!)

Onde estavas quando eu tentava encontrar os pedaços que arrancaram de mim?

(Conheces a dimensão de minha dor?)

Preciso de um pai! Um pai!

(Onde tu estás?)

Temo o dia que não mais precisar.

(Serei livre ou iniciarei meu fim?)

Não rejeito tua dádiva, contudo.

Rejeito a tristeza que me engolfou.

Rejeito a morte que me privou de meu pai.

Rejeito a morte que me privou de meu filho.

Hei de viver à tua imagem e semelhança.

Hei de refulgir tua luz e teu poder.

Hei de despertar de tantos pesadelos...

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