domingo, janeiro 30, 2005

Dante VII

No mais profundo dos sete círculos dos infernos,

vi minha face refletida no lago de fogo.

Vi que eu tinha feições de demônio,

que minha amargura havia-me transformado.

De mero espectador de pesadelos,

tornei-me eu mesmo um dos condenados.

Ao invés de subir os círculos do infernos,

desci todos eles, sofri e sangrei em todo seu solo.

Fui descarnado e mantido vivo em uma estaca.

Por mais que gemesse e clamasse,

meu tormento foi aumentado mil vezes.

Por fim, tornei-me eu mesmo um demônio.

Fui despido de minhas carnes,

despido de minha vaidade humana,

despido da minha virtude,

e da beleza que outrora me pertenceram.

Pus-me a atormentar outros condenados,

criando-lhes horror por sua existência,

desprezo por suas vidas vulgares,

criando-lhes gusanos em suas carnes.

Até que um fogo começou a consumir minha alma,

fazendo-me ansiar a liberdade dos campos verdes,

a beleza dos olhos das crianças,

o som alegre do riso dos inocentes.

Senti saudades da paz das águas calmas,

também da majestade dos mares,

da vida.

Rompi meu horrendo corpo,

e deixei-o aos abutres.

Dobro meus joelhos diante do Trono Supremo.

Minha altivez não fez de mim vida, mas dejeto.

Repudio o mal que represento.

O inferno não existe:

é a gente que o inventa.

Quero viver.

Quero ser.

Existir.


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