domingo, janeiro 30, 2005

Dante V

Meu espírito geme o dia inteiro,

e durante a noite não há descanso.

A morte se tornou um fantasma atormentador,

um dragão terrível determinado a me devorar.

Sinto minhas forças se esvaírem como água de um pote furado.

Cada dia me torno mais frágil,

cada dia mais quieto.

Anseio o silêncio absoluto,

a mais absoluta quietude.

Escondeu-se nas matas,

no topo das montanhas.

Anseio sua altura,

anseio a paz das nuvens.

Não vejo fim de minha dor,

nem limite para meu sofrimento.

Cada dia é uma jornada aos infernos,

como aquela feita por Dante e Virgílio.

Mas não tenho guia,

e me perco sempre em seus círculos.

Atravesso fossos de cadáveres,

rios de sangue e lágrimas,

sob o canto dos lamentos dos condenados.

Não sou dos que viajam pelas profundezas,

mas dos encerrados, um dos malditos,

habitante de todos os círculos do inferno.

O sofrimento e o horror preenchem todas as lacunas,

num dilúvio de angústia e culpa.

Curvo-me sob o peso de meus fardos.

Não há porquê arrastar correntes,

ou porquê nadar contra o curso do rio de fogo.

Meu tormento é maior do que todos os montes,

mais violento do que qualquer fera.

Enfrentaria dois exércitos de demônios com apenas uma arma,

e os derrotaria com um só golpe,

se tão somente me fosse permitido matar meu algoz.

Quanto tempo ainda deverei cumprir da sentença que me condenou?

Destino maldito, estúpida sorte!

Minhas torturas não findaram,

nem findarão amanhã.

Resignar-me-ei a sofrer?

Suportarei minha dor?

Não há descanso aos malditos...

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