domingo, janeiro 30, 2005

Dante I

Dante - Emir Maluf - (18/5/2003 18:47:09)

Tive uma visão do inferno:

Vi a mim mesmo olhando o reflexo

de mim mesmo dentro de meu olho esquerdo.

Vi minha morte e minha vida,

passado e presente, incerto futuro.

Naquele instante, vi também o medo,

horror, horror como nunca vi.

Soube da feiura e da beleza de minha alma,

do insano monstro que habita todos os homens,

do sublime e eterno espírito que move todo respirar.

Dali em diante, caminhei perdido por três mundos,

sem jamais pisar o solo úmido da Terra.

Não bebi nenhum vinho nem água,

não beijei nenhuns lábios,

não me aqueci em nenhuns abraços.

Carreguei minha dor por distâncias infinitas,

sem emitir qualquer som,

sem derramar qualquer lágrima,

até que cheguei ao trono da Majestade.

Diante dele, parei à beira do precipício a contemplar a imensidão da planície,

mas vi as almas dos condenados,

gue arrastavam suas correntes

presas a seus pecados,

gigantescos pecados,

impossíveis de serem perdoados.

Mas o Supremo inundou a planície,

e sua dor findou,

e também meu desespero.

Mas não chorei por eles,

pois não se fizeram dignos.

Chorei antes pelo sangue inocente que derramaram sem piedade.

Chorei pela misericórdia que me foi estendida.

Chorei pela possibilidade de não mais existir nem o inferno nem a dor.

E, pela primeira vez, sorri ao contemplar o primeiro raio de Sol

e a fulgorosa Estrela da Manhã.

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