quinta-feira, janeiro 27, 2005

Chuva

Queria falar sobre algo belo, algo que enchesse de água os olhos de quem me ouve.

Algo que criasse sensibilidade em corações esquecidos e endurecidos, cuja voz suave fizesse dormir em paz e acordar alegre.

Mas a dor cobriu o solo onde vivo e criou nele sulcos profundos, escondendo a luz que antes acariciava a grama e as pedras.

Sumiu minha alegria, levada pelas muitas lágrimas que chorei.

Contudo, dança diante de meus olhos tristes a esperança, esbanjando promessas e utopias reais, e lava a dor que apega-se a mim.

Meus pequenos tesouros distraem-me e alimentam-me:

o sorriso luminoso da criança, o viço da mulher e companheira.

A alegria desce dos céus.

Suas pequeninas gotas caem sobre meus cabelos e descem indiscretas acariciando minha face.

Devagar, refaz a bela forma do sorriso e preenche minhas lacunas com vigor e poder.

Limpa de mim a crosta de dor e de tristeza e faz-me esquecer de chorar.

Quero correr na chuva e esquecer os espinhos que ainda estão em meus pés.

Calado, sentir o vento e ouvir sua doce melodia.

Ter comigo a despreocupação da criança e a sabedoria do idoso.

Há um breve momento no qual existimos.

É um piscar de olhos, um pingo de chuva.

Breve. Intenso. Íntimo.

Recuso-me a deixar de perceber cada movimento, cada instante do caminho que vivo.

Cada um é tão precioso, tão único!

Cada segundo emite sua voz em louvor à beleza criada, e chora pela dor de outros que não a vêem.

A chuva que os céus choram traz a esperança, e cada gota se desfaz na expectativa de revigorar o solo.

O sonho de um lugar de paz e beleza, limpo como o céu de inverno, é feito de muitas nuvens.

Cada uma delas anseia derramar-se, esvaziar-se até a última bruma,para dar-se completa e tornar nova a face da terra.

Ah, bela e revigorante lágrima, desce e reconstrói o que está machucado,

meu coração que se cansou de ver angústia e dor!

Leva embora tudo o que me faz chorar, e traze contigo o Sol da manhã para que faça sorrir os que não Te conhecem.

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