domingo, janeiro 30, 2005

Chorar

A gente se esquece de quem chora.

Lágrimas e tristeza dão medo.

Tenho medo de chorar e com minhas lágrimas

Derrubar os castelos que tento construir.

São ainda areia, fina areia,

apesar de estarem assentados sobre a rocha.

Vento e tempo podem levá-los.

O choro que se chora escorre de cada um sobre o solo.

Pior é quem não chora.

Alguns não sabem, outros se esquecem.

Sua infância foi derramada, nunca foram crianças.

Na Terra há mais choro que riso.

Desvia-se o coração da compaixão,.

Engana-se a si mesmo, dizendo-se:

“Isso é assim mesmo.”

Não quero deixar de chorar.

Chorarei com os que pranteiam.

Essa é minha opção.

Mas nunca mais chorarei por mim mesmo.

É miopia, um lapso de realidade, uma sombra.

Não vale à pena.

Nunca mais serei escravo de limites irracionais, de minha compaixão.

Não sou uma cana pisada, não sou um bambu esmagado.

Ainda que tenha acordado tarde e ainda esteja sonolento,

Agrada-me a guerra, o vencer desafios.

Não desistirei.

Ainda que me sinta sempre alheio a tudo,

Como se nada fizesse parte de mim

E eu não fizesse parte de nada,

Decidi amar. Amar a todos, amar a vida.

Encontro-me naqueles que amo.

Na confiança que lhes inspiro,

No amor que lhes dou

Na esperança que lhes transmito,

Tudo me mostra quem sou.

Não pude encontrar-me em mim mesmo,

Isso não significa uma derrota.

Ter abdicado de uma introspecção inócua

Representou uma vitória, um renascimento.

(Isso aqui não é mais um poema estético!)

Mas ainda cambaleio, como o mutilado que aprende a andar.

Meus passos ainda vacilam enquanto braços amáveis me sustentam.

Olho para esses que me amparam e me compadeço deles.

Como suam! Como os extenuo!

(Como isso é o que mais me corrói!)

Quero vê-los livres de meu peso,

Mas devo esperar o momento certo.

Terei forças e humildade para esperar...

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