terça-feira, dezembro 28, 2004

Turbulência

Quanto mais alto grita o coração,
tanto mais intenso e nítido se torna seu clamor.
Sua agitação não tem fim,
e o ardor cresce como o silêncio da noite.
Como águas que nunca se cansam de correr,
meus rins não se aquietam nem se calam.
Sou o vendaval, a tormenta que não finda,
que tudo revolve e que tudo perscruta.
Cada fresta é uma porta, cada greta um vale aberto.
Nada impede minha passagem.
Sofro por tal inquietude, mas sofreria mais se assim não fosse.
A calmaria no mar é incômoda.
Seu silêncio denota interrupção e leva o pequeno pescador à conformidade.
Não é possível conformar meu coração ao que querem que ele seja.
Ele segue o caminho no qual foi posto a velejar,
apesar dos tantos anteparos postos diante de mim.
Um nevoeiro paira sobre suas velas,
mas em sua desesperada confiança em seu destino,
persiste sem descanso a singrar seu leito outrora trilhado por outros corações inconformados.
Um homem do mar não se pertence:
entregou sua vida às ondas, fez do sal seu sangue.
Criou de corais sua cama,
seu ar tem o calor e o frio das águas.
Assim é aquele que se estendeu para a verdade derradeira.
Sua alma foi tragada pela realidade suprema,
fundida na solidez eterna da intemporalidade do Criador.
Todos os grandes nomes,
tudo que conceda ao homem majestade e louros,
toda façanha de poder e de caridade,
tudo que a ela não reconheça perdeu seu significado.
Tornou-se vaidade tola,
infantil como um circo de pulgas.
As pequenas coisas tornam-se máximas,
como o sorriso da inocente criança que contempla o mar e sua dimensão,
A visão toma o encanto de um sonho belo,
imerecido demais,
belo demais para ser observado por olhos impuros.
Cada cena torna-se parte de uma história sem fim,
cujo desenrolar revela em si os mistérios do Universo.
A calmaria torna-se veloz e o tempo,
um grande tapete tecido com lágrimas e sorrisos,
com mistérios e segredos desvelados.
Viver no limiar das eras é maravilhoso e terrível.
Anda-se em ovos e os bancos das praças estão cheios de vômito.
Contempla-se a tempestade e a bonança.
Vive-se sem amanhã e com um futuro eterno.
Encanto e terror, medo e confiança.
Em tudo, e sempre,
que haja paixão.

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