terça-feira, dezembro 28, 2004

A Ruptura

Parto.

Não mais posso me suportar.

Rompi com meu mundo, com meu existir.

Toda a realidade de meu coração se esvaiu.

Tolo que sou, esperei ver o Sol raiar em meio às trevas.

Seus tentáculos são mais poderosos do que supus.

Alcançam até os que afirmam andar na luz.

Alcançam a mim mesmo, que sucumbo diante deles.

O mal é algo insondável em sua amplitude.

Disfarça-se de luz, engana e corrompe.

Meu coração se quebrou, minha confiança se foi.

Não mais consigo sentir a inocência em mim.

Morreu.

Não mais vejo sorrisos, porém máscaras fúteis.

Poucos são os rostos genuínos:

O sorriso da prostituta em seu descanso;

O sorriso da criança que ainda não falou;

O sorriso do louco em seu delírio dolorido.

O resto são máscaras, esconderijos de covardia e terror.

Escondem crianças mortas, adultos vazios, mas nem tanto.

Cada qual aflito, encolhido, tentando fugir da imagem que reflete de si mesmo.

Como é aterrorizante enxergar a si próprio!

Quanta dor! Quanta dor! Quanta dor!

Sinto-me tão pequeno diante do gigante que queriam que eu fosse!

Não posso chegar nem mesmo à altura de suas sandálias!

Qualquer um que me vê enxerga uma ilusão, um engano proposital.

Queria tão somente ser um não-ser, um não-ente.

Queria que ninguém me visse, que todos me esquecessem.

Eu partiria para longe do monstro ideal que nunca fui.

Deixaria para trás o testemunho de minha incompletude.

Poderia assim ser o nada,

ser o incogniscível que sou e deixar-me assim.

Não uso mais a roupa do gigante ideal,

do monstro que me perseguiu e ainda persegue.

Ao deixa-la, nu que fiquei, tremo de frio.

Mas me acostumo com esse estado, embora não de todo.

Rejeito o retorno aos anteriores trapos que usava.

Sobravam-me por todas as extremidades de meu corpo.

Tropeçava neles.

Na verdade, ainda tropeço, acostumado que estou com o cair.

Como dói existir!

Será que conseguirei produzir minha paz?

Sinto como se todos, inclusive eu, me deixassem.

O que me acalanta, e, creio, mantém-me vivo, é o teu sorriso,criança.

Vendo seus olhos, cintilam os meus.

Mas vendo sua dor, maldigo o gigante ideal que as magoa.

Odeio-o ainda mais.

Estarei ao teu lado, criança, para poder viver.

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