terça-feira, dezembro 28, 2004

Renovação

Na pedra crestada e trincada pelo fogo nasce a camada de vida:

solo vivo e palpitante,

seiva sagrada que alimenta o mistério da existência.

Sobre esta vem a semente que cresce devagar e inexorável como o tempo.

Sopra o vento, aquece o Sol, desperta a manhã, silencia o entardecer...

O frio endurece a roupagem exterior,

e a árvore aprende a buscar o calor da Terra para viver.

A ressequida árvore volta a florir após a chuva da primavera,

e viçosa faz-se bela, frondosa, ainda que pequena.

De uma minúscula gota de vida,

o milagre da multiplicação flui sem medo.

Despreocupado, prossegue jorrando almas de olhinhos brilhantes e carinhosos que revelam o afeto terno de seu Criador.

A vida prossegue, tão bela e tão forte, tão frágil e tão dona de si.

Na Terra, reina como se não houvesse choro nem dor.

Sua abundância violenta a agressão contra a mansão azul,

resiste obstinada a todo ardil contra sua permanência.

Tudo reluz, o verde e o azul, o branco e o amarelo do Sol.

Tudo muda, mas o propósito eterno jamais será alterado.

A exuberância fez aqui a sua morada, obra de arte, obra de amor.

A pequena nuvem transforma-se em coelhos, em dragões e pássaros,

e assim faz o fogo que, tênue e tímido, tremula em minha garganta.

Meus olhos jorram águas com gratidão,

meu coração transborda em apreço.

Existir parece pouco, mas é tudo o que foi dado.

A renovação vem a cada novo nascimento de nossa consciência,

que morre a cada Lua.

Traz tudo novamente à tona,

tudo o que de pesado afundou.

Louvado seja o turbilhão do espírito,

que revolve o solo e renova o ver!

Não basta poder enxergar além sem poder perceber sua própria sombra.

A cada lua o pensador deve voltar à sua cidade para contemplar as montanhas que o cercam

para poder sentir com intensidade a vastidão de seu espaço,

para não perder sequer um pequeno planeta dentre os que vigia.

Cordilheira elevada, sulcada e pincelada por sombras,

esconderijo de mistérios e histórias antigas,

longe da impura mão que destrói e do medo que escraviza,

sempre bela e inspiradora de anseios nobres.

Ali, a cada Lua, revivo o que sou, refaço meu rosto,

encontro-me com meu Criador para ver seu sorriso e sua lágrima.

Ali busco sua mão, e sua paciência.

Ali encontro paz.

Nenhum comentário: