terça-feira, dezembro 28, 2004

Pai

Quantas vezes quis te ver, quis te tocar.

Quantas vezes chorei carente de teu abraço.

Tua ausência, teu silêncio, estas eram sua presença.

A criança sabe ouvir palavras impronunciadas.

Sua percepção é tão particular, tão intensa para si!

Queria tê-lo comigo, hoje eu saberia te apreciar.

Não teria sido preciso fugir. Mas não fugiste.

Tu não me abandonaste, mas foste arrancado de minhas mãos pequenas.

Ficou o suor tépido e úmido, ficou seu cheiro, o arranhar de tua barba por fazer.

Coisas que parecem insignificantes, mas são lembranças poderosas.

A cáustica saudade é um barco que já partiu ao horizonte:Você gostaria de estar nele, mas já é muito tarde.

Você perdeu a saída, não pode entrar: ficou para trás.

Anseio o dia em que o verei novamente.

É melhor dizer “o dia em que o conhecerei de fato” do que odia em que o verei..

Vejo que tu moras em mim.

Tenho teus gostos, teus jeitos, tuas manias.

Alegro-me com teus defeitos em mim, e também com tuas qualidades.

Orgulho-me de tua ciência, tua sede de sabedoria, pois as sinto prementes em minha própria alma.

Orgulho-me de teu nome, mas choro tua ausência.

Revolve-se em mim uma impaciência, uma pressa.

Os dias são muito longos, já por anos lenhos esperado.

Não quero, contudo, deixar-me acostumar ao vazio e tornar-me vazio.

Quero ocupar-me com o que é proveitoso, cansado que estou do vazio.

Ó! meu Deus, livra-te de mim!

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