terça-feira, dezembro 28, 2004

O Cárcere

Há grilhões que não ferem pulsos, que não tilintam quando se anda.

São cadeias invisíveis, mais pesadas do que metálicas.

Sou um prisioneiro. Não me é própria a liberdade.

Fui feito para o cárcere, o cárcere para mim.

Toda a inclinação de minha alma é contra minha paz.

Assassinato, ações vis e mesquinhas, mediocridade são meu alimento.

O sono foge de minha cama, deixando-me vistas aterradoras.

A morte seria um alívio, mas esta também se evade.

O pingar dos segundos é parte da tortura regular.

Silêncio absurdo e fútil, enche meus ouvidos, abarrota-os.

Tudo é vão, tudo é inútil, tudo é vazio.

A superficialidade é uma saída covarde.

Todos nós estamos presos, todos somos cativos.

Só não o percebe quem mantém seus olhos fechados.

Mas o belo não é próprio de mim, vil criatura que sou.

Se minha alma fosse jogada ao mar, tornaria amargas suas águas.

Se minha alma fosse elevada aos céus, o tornaria negro e aterrador.

O contraste faz parte de mim, o maldito paradoxo.

Quem é mais rico do que eu? Quem pode superar-me em dádivas?

Meu inquieto coração não se contenta com a plenitude.

É por demais ingrato e ímpio para se deter nisto.

Anseia pela culpa, pela dor, pela fusão com a vileza mais completa.

Estas cadeias eu levo por todas as horas do dia, por todos os segundos da noite.

Tenho de andar, tenho de continuar a andar, ou morrerei!

Ainda me resta algo de valor pelo qual viver, e não quero perdê-lo.

Assim sendo, torno ainda mais violenta minha sina:

Seguir como um natimorto, alguém que não existe.

Assassinar-me em vida, se me falta a coragem para cortar os pulsos.

Anular minha vontade, anular meus desejos, planos, anseios.

Jogar por terra tudo o que pensei ser e que ainda não fui.

Destruir a volúpia, a luxúria, a violência de todas as minhas inclinações.

Como o silêncio dos fatos me atordoa!

Anseio ver os céus em chamas, as estrelas caindo para a Terra!

Este será o meu dia, o meu grande dia.

Será ali, quando eu souber quem sou de fato, que nascerei novamente.

Deixarei minhas cadeias para tornar-me um pássaro majestoso,

Uma grande águia dos céus cujas asas a levam tão alto quanto queira.

Serei como a grande baleia negra e branca, senhora dos mares.

Serei como o Grande Espírito que conhece seus caminhos,

No qual o vento não consegue bater nem abalar.

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