terça-feira, dezembro 28, 2004

Ícaro

Liberdade é um sonho branco.

O chão é pura luz, e a gente não vê direito onde pisa.

O medo chega mordendo o estômago e fazendo frio.

Parece uma ilusão, mas é real: posso voar!

Alço vôo com a alegria de um menino.

Rio dos pássaros que não têm minha força,

e das gaivotas que não voam tão alto quanto eu.

Mas estou desacostumado com a altura.

A vertigem cobra o seu preço.

As coisas começam a tornar-se escuras.

Meus olhos não mais vêem o horizonte.

Caio cada vez mais rápido, e o ar foge de meus pulmões.

Pergunto-me sobre o alto preço que pago.

Nunca havia ido tão alto, tão perto do Sol.

Minhas asas se derretem, e a sua cera escorre por meus braços.

Não me cansei de batê-los, não me fatiguei pelo esforço!

Por que caio agora, sendo que haveria de atingir cometas e estrelas?

O chão pontiagudo rosna com suas covas dentadas.

Anseia saciar-se com minha carne, matar sua sede com meu sangue!

Que posso eu fazer? Em que me agarrar?

As nuvens não me amparam, não me acolchoam.

Mas vi o que os homens nunca verão em suas tocas.

Experimentei a liberdade do vôo e da queda.

Sou a gota de orvalho que desce do alto e que rega a terra.

Darei minha força às plantas, meu vigor ao solo seco.

Sou o grito no silêncio, a verdade no meio do nada.

Abre tua boca, ó Terra, traga-me!

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